Por que não usar animais vivos na graduação de Medicina

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CONSIDERAÇÕES SOBRE O ENSINO MÉDICO: ARGUMENTOS PARA A NÃO UTILIZAÇÃO DE ANIMAIS VIVOS NO ENSINO DE GRADUAÇÃO EM MEDICINA

Artigo da Profa. Dra. Registila Libania Beltrame
Farmacêutica-Bioquímica pela Universidade de São Paulo – USP
Mestre em Microbiologia Clínica pela Universidade de São Paulo – USP
Doutora em Educação-Currículo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP
Titular de Microbiologia e Imunologia da Faculdade de Medicina do ABC
Coordenadora de Pós-Graduação das Faculdades Oswaldo Cruz

A visão cartesiana do ser humano, que divide o organismo em partes estudadas separadamente, supervalorizou o médico especialista, com o declínio dos profissionais denominados generalistas. Como decorrência dessa especialização e dos avanços no arsenal diagnóstico, o paciente passou a não mais ser visto como integral, contextualizado, o que levou à substituição da relação antes intensa entre médico e paciente por exames subsidiários, que “falariam” pelo paciente. A realização do exame clínico criterioso e da anamnese cuidadosa, que contribuíam para o diagnóstico da enfermidade e faziam com que houvesse grande interação entre o médico e o indivíduo, foram praticamente trocados por um aumento da quantidade de exames e da utilização de tecnologia para o diagnóstico das doenças. Como se não bastasse ter ocorrido a queda na qualidade da relação médico-paciente, o excesso de demanda de exames laboratoriais e tecnologia avançada estaria encarecendo sobremaneira a prática da medicina.

A impossibilidade de esse modelo de prática médica levar ao acesso universal e equitativo da população aos serviços de saúde tornou-se consensual no mundo, o que reforça a necessidade de alterações curriculares no sentido de formar um médico diferenciado, que procure basear seu diagnóstico no histórico do paciente, na anamnese e em um exame clínico criterioso.

Além disso, a insustentabilidade da manutenção da prática da chamada Medicina Tecnológica, de alto custo, principalmente num país pobre como o Brasil, reforça a necessidade de realizar as mudanças pretendidas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina, publicadas em 2001 no currículo de formação do médico.

A mudança de paradigma no ensino médico é considerada necessária para promover a formação de profissionais humanistas, críticos e reflexivos, cujas prioridades são a Atenção Primária, promoção à Saúde, prevenção das doenças e que sejam capazes de resolver os casos das doenças prevalentes na comunidade.

Esse perfil de profissional é o preconizado pelas diretrizes, que têm como objetivo reverter o exercício da chamada “Medicina Tecnológica” para o que se costuma chamar de “Medicina Social”, uma vez que preconizam a formação do profissional que dê atendimento primário adequado para a maior parte da população, promovendo a saúde, prevenindo as enfermidades, diagnosticando e resolvendo as doenças que mais frequentemente acometem a população.

Todavia, os processos de mudanças curriculares visando à formação do médico geral têm enfrentado dificuldades nas escolas, pois a resistência a mudanças é muito forte, principalmente nas escolas tradicionais.

Como contribuição ao aspecto da humanização dos médicos, tão enfatizada nas Diretrizes Curriculares para os Cursos de Graduação em Medicina, há que se considerar o uso de animais vivos como “objetos de estudo”. Não poderia haver, nesses casos, uma tendência do aluno, ainda no início do curso, de “coisificar” o paciente, seu principal objeto de estudo? Vários estudos mostraram que o processo de “coisificação” do ser humano, no caso os pacientes, ocorreria durante todo o processo de formação do médico, o que explicaria a crescente falta de compaixão (desculpem a pieguice, mas essa é a palavra adequada aqui) apresentada por muitos egressos dos cursos de Medicina.

Por entenderem que a utilização de animais vivos apenas para demonstrar conhecimento já sobejamente conhecido, como é o caso do curso de graduação, poderia contribuir para a “coisificação” do ser humano, várias escolas atualmente estão utilizando métodos alternativos para substituição dos animais vivos em atividades puramente didáticas. Nesses métodos alternativos, que muitas vezes se utilizam de computadores, as experiências didáticas poderiam ser realizadas várias vezes, aperfeiçoando a aquisição de conhecimento, sem a necessidade do sacrifício de animais saudáveis.

Ainda podemos citar convênios com clínicas veterinárias que forneceriam animais mortos naturalmente para serem utilizados em aulas de disciplinas cirúrgicas, por exemplo. Isso tem sido feito com bastante sucesso e eficiência nas escolas que não mais se utilizam de animais saudáveis vivos para essa finalidade.

Enfatizo que na Faculdade de Medicina do ABC, que não utiliza mais animais vivos nos cursos de graduação desde 2007, a avaliação dos egressos pelo ENADE tem sido a melhor possível, estando essa escola médica entre as 10 melhores do país.

Evidentemente, existem vários motivos para a desumanização do médico, mas acreditamos que a eliminação de animais vivos como objeto em cursos de graduação contribui para essa desumanização e pela falta de empatia apresentada por uma parte considerável dos formados em Medicina.

 

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