O fim do uso das cobaias no ensino já é uma realidade em outros países

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Se nos EUA e Canadá médicos não se formam com cobaias, por que no Brasil várias faculdades insistem em manter métodos de ensino arcaicos e que causam muito sofrimento físico e psicológico aos animais?

O Comitê de Médicos para a Medicina Responsável (Physicians Committee for Responsible Medicine – PCRM), que tem sede em Washington e 12 mil membros pelo mundo, conseguiu que 202 universidades médicas americanas e canadenses deixassem de usar cobaias no ensino.

O doutor em Medicina, membro do Colégio Americano de Cardiologia e diretor do PCRM, John Pippin, fala da conquista nessa entrevista para o site “Animais no Ensino”:

As 202 escolas de medicina dos EUA e Canadá deixaram de usar animais vivos em todas as etapas do curso?

John Pippin: Sim, todas as 202 escolas médicas osteopáticas (de medicina natural) e alopáticas credenciadas nos Estados Unidos e Canadá utilizam treinamento baseado em humanos. Eles não usam treinamento baseado em animais. Isto aplica-se à Educação de estudantes de Medicina e não inclui pesquisa nessas mesmas escolas.

Como foi o processo para acabar com o uso de cobaias no ensino da Medicina?

John Pippin: Completamos 31 anos empurrando a evolução do treinamento médico para alcançar o paradigma de hoje, em que a educação de estudantes de Medicina é livre de animais. Em 1994, a maioria dos currículos das escolas médicas nos Estados Unidos incluía exercícios com animais vivos. No entanto, ao longo dos últimos 20 anos, a prática diminuiu de forma constante e, após 2005, a transição para longe do uso dos animais acelerou.

Quando de fato acabou a prática do uso de animais vivos?

Em fevereiro de 2015, quatro escolas de medicina – a Universidade do Mississippi, a Universidade Rush, a Universidade Johns Hopkins e o campus da Universidade do Tennessee em Chattanooga – ainda usavam animais para esse fim, mas todas já terminaram a prática. Em 2016 nenhuma das 202 escolas médicas credenciadas nos Estados Unidos e Canadá usava animais vivos para treinamento de estudantes.

Como os animais eram usados?

O uso de animais na Medicina ocorria predominantemente em duas disciplinas: fisiologia (incluindo farmacologia) e cirurgia. A Universidade do Mississippi, por exemplo, foi a última escola a usar porcos vivos para ensinar a fisiologia cardiovascular humana aos alunos do primeiro ano. Em laboratórios de fisiologia animal, os alunos colocavam cateteres nas artérias e veias de animais para realizar várias intervenções e injetar drogas, enquanto mediam respostas fisiológicas, como pressão arterial, freqüência cardíaca e desempenho cardiovascular .

Para ensinar habilidades cirúrgicas eram feitas incisões, remoção de órgãos, sutura e outros procedimentos cirúrgicos básicos. O uso de animais para cirurgia laparoscópica envolvia fazer incisões no abdômen de um animal e depois inserir tubos com câmeras iluminadas (endoscópios) e instrumentos cirúrgicos . Os animais que eram mortos após o treino ou morriam durante os experimentos.

 

A substituição de animais vivos por outros métodos trouxe benefícios tecnológicos?

Sim. Resultou principalmente do desenvolvimento de simuladores interativos e programáveis ​​reais que melhor reproduzem a anatomia e a fisiologia humana. Também permitiu a validação desses simuladores como equivalente ou superior à educação baseada em animais, o reconhecimento de que o treinamento em humanos transfere muito mais conhecimento  para a medicina clínica e a incorporação da ética médica nos currículos das escolas médicas.

Em tempo

Este ano, o Projeto de Lei 706/2012 ou Lei Anticobaias no ensino, do deputado estadual Feliciano Filho, foi aprovado na Assembleia Legislativa de SP (Alesp), mas vetado pelo governador Geraldo Alckmin. Três universidades estaduais, USP, Unesp e Unicamp entregaram ofícios ao governador dizendo que alguns procedimentos no ensino de Medicina, Medicina Veterinária, entre outros cursos, não tinham como ser feitos sem o uso de cobaias. O deputado trabalha agora pela derrubada do veto.

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